sexta-feira, 16 de março de 2012

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
( Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 11 de março de 2012

Em casa

(revisitando um futuro antigo cantinho. frequentando textos, sem morar.) 







Quero que esteja no meu futuro sofá gigante um par de braços ganchos que me apertem até o sufocamento às 7 e 45 da noite após a tardinha calorenta com céu cheio de estrelas distribuídas como sempre
e um copo de bebida gelada servida após o abraço e
seguida de um beijo quente no verão quente e um cair juntos no colchão com edredon logo que tirar o cachecol
e um monte de risadas preguiçosas no fim de um dia
invernoso perto do fim de semana
e um abrir de olhos seguido do cheiro de intimidade bucal inevitável
e mais um enroscar a 4 pernas e um esfregar de pés fresquinhos
às 6 da manhã de um sonho a dois num domingo qualquer -
dia de ir ao parque.

terça-feira, 6 de março de 2012

Leminsk de madrugada

Eu 



eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha
 ( Paulo Leminsk)

domingo, 4 de março de 2012

Dobras, dobra-te



quero fazer um poema para celebrar.
que tudo se dobre
que tudo é movência
e que você se dobre
se deixe virar
que tudo se move
pra voce deixar
dobrar seus lados
que tudo é pra ser laçado
lançado com tudo
que é pra ser dançado
que é pra você olhar os laços
pra tudo mover
desenferrujar os modos
e virar os ossos
torcer os olhos
dá teu corpo a torcer
porque torço
pela dobra
que a tudo abraça e enlaça,
transforma e carrega
porque torço pra que
tal dobra
te olhe nos olhos,
desvendo a reta e
rasbique a meta
ziguezagueando.
pra que teu peito se desforme.
contorce-se.
os seus medos
se virem
e desvirem seus sonhos
e nas dobras, você se curve
nas curvas de sonhos
que se dobram sobre si mesmos.
e que tudo se mova,
que tudo escorra.
carrega esse movimento.
se deixa,
se leva,
encosta,
que tudo é tempo.
não corra ou corra.

sábado, 3 de março de 2012

Pesquisa

"Luz nos olhos..."
"Frechada do teu olhar...."
"Estrelas nos olhos..."
"Olhos nos olhos..."
"Olhos fechados..."
"Cisco no olho..."

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sina de nefelibata

Como partir assim, estando partida? Dá pra juntar os pedaços em outro continente? E se juntar os "ses",  botar na mala e fazer escala  em qualquer porção de céu? Parte comigo. Repara que em tal casa, também residirão nuvens...




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mais Cécilia

Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
 
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
 
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
 
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
 
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
 
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
 
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
 
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.